Em entrevista à RNP em Revista, o diretor-executivo da RedCLARA (Cooperação Latino-Americana de Redes Avançadas), Luis Eliécer Cadenas, defende que as redes acadêmicas devem ir além da oferta de conectividade. Precisam constituir um ecossistema digital para a ciência aberta, oferecendo serviços de computação de alto desempenho, armazenamento e compartilhamento de dados científicos, inteligência artificial e colaboração internacional. O engenheiro da computação venezuelano acrescenta que a conectividade acadêmica deve ser tratada como uma infraestrutura estratégica, comparável aos sistemas de energia e abastecimento de água.
Luis Eliécer Cadenas estará presente no Fórum RNP 2026, participando do painel: “Soberania Digital em um Mundo Interdependente: O Novo Papel das NRENs Globais”, no dia 25 de agosto.
RNP: A RedCLARA tem sido, há mais de duas décadas, uma peça-chave para a integração digital da comunidade acadêmica latino-americana. Como o senhor avalia hoje o papel estratégico da rede regional no desenvolvimento científico e tecnológico da América Latina?
Luis Eliécer: O principal papel estratégico da RedCLARA é promover e facilitar a cooperação entre as redes nacionais de pesquisa e educação da América Latina e do Caribe, impulsionando, por meio dessa colaboração, o desenvolvimento de projetos e iniciativas de alcance regional. A RedCLARA conta com uma importante infraestrutura de conectividade internacional que serve como plataforma digital para essa cooperação. Como exemplo, essa plataforma permite conectar de forma dedicada grandes centros de computação de alto desempenho da região. Esses centros, por sua vez, constituem uma ferramenta essencial para o desenvolvimento da inteligência artificial. Conectá-los entre si representa uma oportunidade de complementar e otimizar investimentos, além de reduzir barreiras de entrada, especialmente para países com menos recursos.
Outro campo de importância fundamental é a coordenação de iniciativas e projetos voltados para a criação de uma plataforma compartilhada de dados. Uma estrutura desse tipo possibilita o uso de dados em um contexto mais amplo do que o nacional, gerando oportunidades adicionais de cooperação e colaboração científica, educacional e tecnológica entre nossos países.
A ciência contemporânea é colaborativa por definição: depende da movimentação de grandes volumes de dados, do acesso remoto a instrumentos científicos, a capacidades computacionais e de inteligência artificial, além do trabalho conjunto entre instituições de diferentes países. Essa camada de conectividade avançada, dedicada exclusivamente à pesquisa e à educação, contribui para que a América Latina participe ativamente da produção de conhecimento e de sua aplicação em inovações que, em última instância, se traduzem em mais e melhores oportunidades para a população.
RNP: Em sua opinião, qual é o valor concreto que a conexão à RedCLARA agrega às redes nacionais de pesquisa e educação da região e às suas comunidades acadêmicas?
Luis Eliécer: As redes nacionais de pesquisa e educação são, em âmbito nacional, uma expressão da necessidade de universidades e centros de pesquisa colaborarem entre si e com outras organizações ao redor do mundo. A RedCLARA conecta fisicamente essas redes em nível internacional e, dessa forma, viabiliza o acesso global a recursos e capacidades.
Ao trabalhar coletivamente em objetivos comuns a todas as redes nacionais, otimiza-se o uso dos recursos e produz-se um impacto muito maior do que o que seria alcançado individualmente. Dessa forma, as comunidades de pesquisa atendidas por suas redes nacionais conseguem ampliar significativamente suas capacidades.
RNP: A América Latina possui uma longa tradição de colaboração científica regional, mas também enfrenta desafios estruturais. Quais são hoje os principais desafios para fortalecer as redes acadêmicas latino-americanas?
Luis Eliécer: A desigualdade econômica e social na América Latina é a principal causa das dificuldades enfrentadas por algumas redes nacionais. Nossos países apresentam características muito diversas, e não é coincidência que praticamente todos os países com redes nacionais de pesquisa e educação estáveis e robustas sejam aqueles que atribuem grande valor ao conhecimento e à educação. Se observarmos o cenário global, eu me arriscaria a dizer que não existe país com elevado desenvolvimento científico e tecnológico que não disponha de uma rede nacional. Uma vez alcançado determinado nível de desenvolvimento, a rede nacional se torna uma necessidade.
Antes de atingir esse patamar, a rede nacional é, sobretudo, resultado da convicção de governos, universidades e centros de pesquisa sobre o impacto que sua existência e operação podem ter no estímulo a esse desenvolvimento. É aí que surge outro grande desafio: como demonstrar o valor dessas redes. Nesse cenário, elas competem por recursos em contextos marcados por grandes necessidades econômicas e sociais, o que dificulta a obtenção dos recursos necessários para seu funcionamento.
RNP: Em alguns países da região, as redes nacionais enfrentaram períodos de enfraquecimento ou redução de capacidades. Quais fatores explicam esse fenômeno e quais estratégias poderiam ajudar a revertê-lo?
Luis Eliécer: Na América Latina, ainda há muito trabalho a ser feito para demonstrar aos países o valor dessas organizações. O desafio fundamental está ligado à escassez de recursos. Em muitos casos, possuir uma rede nacional pode parecer um luxo inacessível para países com economias mais frágeis. Paradoxalmente, é justamente nesses países que sua função pode ser mais importante.
Mais uma vez, a cooperação pode e deve ajudar a oferecer uma resposta. Precisamos construir conjuntamente um modelo de operação e funcionamento para a RedCLARA que garanta sua sustentabilidade sem abrir mão de sua vocação coletiva e regional. Quando uma rede nacional se enfraquece, raramente isso ocorre por uma única causa. Geralmente há uma combinação de dependência de uma única fonte de financiamento, mudanças de governo ou de prioridades políticas que interrompem sua continuidade, além da perda de memória institucional quando profissionais que detinham o conhecimento técnico deixam a organização.
Em alguns casos, a rede também não conseguiu demonstrar de forma suficientemente clara seu valor para a comunidade que deveria atender, passando a ser percebida apenas como mais um serviço e não como uma infraestrutura essencial. Reverter esse ciclo exige, em primeiro lugar, diversificar as fontes de financiamento para evitar dependência de uma única decisão política. Em segundo, tornar seu valor visível, mostrando a reitores, pesquisadores e autoridades quais resultados científicos concretos são viabilizados pela rede. E, em terceiro lugar, apoiar-se na solidariedade regional.
Uma das funções da RedCLARA é justamente apoiar as redes em dificuldades com conhecimento, boas práticas e suporte institucional, para que nenhuma delas precise enfrentar sozinha seu processo de reconstrução. Algumas redes, na verdade, nunca chegaram a ser fortes. Mantiveram-se durante muitos anos graças ao esforço e ao compromisso de seus fundadores, mas sempre operaram em condições de insuficiência de recursos. Por isso, não acredito que tenha ocorrido exatamente um processo de enfraquecimento; houve circunstâncias, como a pandemia, mudanças de governo e alterações de orientação política, que afetaram profundamente as redes mais vulneráveis. Para as redes emergentes ou fragilizadas, é indispensável contar com um plano específico de fortalecimento. Trata-se de uma tarefa complexa e custosa, para a qual a RedCLARA necessita de recursos e apoio. A resposta a esse desafio volta a estar em nossa capacidade de cooperação e na busca de parceiros com os quais possamos enfrentá-lo.
RNP: Ainda existem países da América Latina cujas redes nacionais não estão plenamente conectadas à RedCLARA. Quais são as principais barreiras para essa integração e quais oportunidades estão sendo perdidas por não fazerem parte dessa infraestrutura regional?
Luis Eliécer: Existem barreiras para integrar países que ainda não estão conectados. Essas barreiras resultam de uma combinação de fatores relacionados a custos, informação e organização interna. Em alguns países, o custo dos enlaces internacionais ainda é elevado. Em outros, ainda não existe uma rede nacional consolidada capaz de articular universidades e atuar como contraparte institucional. Também pode faltar liderança institucional que impulsione esse processo.
Em certas situações, simplesmente não se tem dimensão do que está em jogo. E o que se perde é considerável: ficar fora dessa infraestrutura significa ficar à margem da colaboração científica que hoje se organiza em rede, enfrentar maiores assimetrias em relação aos pares regionais e perder acesso a recursos, dados e instrumentos compartilhados. A ciência que não se conecta acaba se isolando.
RNP: A ciência contemporânea depende cada vez mais de infraestruturas digitais avançadas e da circulação de grandes volumes de dados. Como a RedCLARA está evoluindo para responder a essas novas demandas da pesquisa?
Luis Eliécer: A rede está evoluindo em dois planos simultaneamente. No plano da capacidade, amplia continuamente sua largura de banda e adota arquiteturas concebidas especificamente para o transporte de grandes volumes de dados científicos, que apresentam requisitos muito diferentes daqueles do tráfego convencional. Mas a transformação mais profunda ocorre no plano dos serviços. Hoje, a conectividade é a base sobre a qual se constroem capacidades distribuídas de computação e armazenamento, gestão e publicação de dados de pesquisa, ciência aberta e, cada vez mais, ferramentas associadas à inteligência artificial.
Áreas como astronomia, genômica e ciências climáticas produzem volumes de dados que nenhuma instituição consegue processar isoladamente, exigindo o compartilhamento, a movimentação e a análise federada dessas informações. Nosso plano para 2026-2030 aponta exatamente nessa direção: fazer com que a rede não apenas transporte dados, mas ofereça o ambiente de serviços de que a ciência intensiva em dados necessita para ser realizada na região e não fora dela.
RNP: A RedCLARA também desempenha um papel importante na conexão da América Latina com outras redes acadêmicas do mundo, como a GÉANT, na Europa, e a Internet2, nos Estados Unidos. Qual é a importância dessa dimensão global para a ciência da nossa região?
Luis Eliécer: Essa é uma dimensão essencial, porque a ciência de fronteira é global e nenhuma região a realiza sozinha. A interconexão com a GÉANT, na Europa, com a Internet2, nos Estados Unidos, e com outras redes acadêmicas ao redor do mundo significa que um pesquisador latino-americano pode colaborar com seus pares em qualquer continente por meio de uma infraestrutura de qualidade equivalente, participar de grandes projetos internacionais e acessar instalações e bases de dados globais.
O programa BELLA é um excelente exemplo do que isso representa. Ele estabeleceu uma ligação direta por fibra óptica entre a América Latina e a Europa, fazendo com que essa colaboração deixe de depender da infraestrutura de terceiros. Isso possui um valor que vai além dos aspectos técnicos: trata-se de uma questão de autonomia. Dispor de rotas próprias de interconexão, geridas de forma colaborativa, permite que a região participe da conversa científica global a partir de uma posição própria, em vez de simplesmente se adaptar a condições definidas em outros lugares.
RNP: Finalmente, que mensagem o senhor gostaria de transmitir aos formuladores de políticas públicas e aos líderes universitários sobre a importância de investir em redes acadêmicas e em conectividade regional?
Luis Eliécer: Investir em redes acadêmicas é investir na capacidade da região de produzir conhecimento. E esse investimento é relativamente modesto quando comparado ao impacto que produz. Para cada recurso destinado à sustentação dessa infraestrutura, viabiliza-se uma enorme quantidade de atividades científicas, educacionais e colaborativas que, de outra forma, simplesmente não existiriam.
Aos formuladores de políticas públicas, eu diria que a conectividade para pesquisa e educação deve ser compreendida pelo que realmente é: uma infraestrutura crítica de longo prazo, comparável à energia elétrica ou ao abastecimento de água. Ela exige continuidade e não pode ficar sujeita às oscilações de cada ciclo orçamentário. Aos líderes universitários, eu diria que essa rede é um bem comum que se fortalece com a participação de todos. Quanto mais instituições a utilizam, alimentam e defendem, mais valiosa ela se torna para toda a comunidade.
A América Latina possui uma longa e orgulhosa tradição de colaboração científica. As redes acadêmicas são a expressão contemporânea dessa tradição, e sustentá-las significa decidir que a região deseja continuar tendo uma voz própria no futuro do conhecimento.