Especialistas, reitores e representantes do governo discutem desafios da infraestrutura digital e da inovação nacional
Começou o Fórum RNP 2026. No primeiro dia aberto ao público, os participantes acompanharam a palestra da futurista e especialista em Inteligência Artificial (IA) Martha Gabriel. Ela explicou como a aceleração das mudanças exige preparação para um futuro de regras em constante transformação. Segundo Martha, mudanças profundas em um tempo muito curto dificultam a identificação de ameaças e oportunidades.
“Quando temos uma aceleração muito grande e estamos vivendo algo inédito significa que temos um jogo novo todo dia. E, quando temos isso, qual é a primeira habilidade que precisamos desenvolver? Conhecer bem as regras. Não adianta ter todas as outras habilidades, se não conhecermos as regras do jogo”, afirmou.
Para Martha, a IA trouxe avanços para a sociedade, mas seu uso precisa ser bem pensado. Outra habilidade necessária na era atual é antecipar desafios e oportunidades.
“Prever os cenários ruins é fundamental tanto quanto prever os bons. Se tem probabilidade de acontecer, mesmo que seja pequena, é preciso ser levado em consideração. Porque isso prepara a gente melhor”, ressaltou.
Lançamento do CND-CE

A programação da manhã também contou com o lançamento do Centro Nacional de Dados do Ceará (CND-CE). Fruto de uma parceria entre a RNP e a V.tal, por meio do seu braço dedicado a centro de dados – Tecto Data Centers -, a nova unidade amplia a capacidade disponível para atender às crescentes demandas de armazenamento, processamento e compartilhamento de dados da educação e da pesquisa.
O CND-CE integra a estratégia nacional de Centros Nacionais de Dados da RNP, que já conta com unidades em São Paulo e no Distrito Federal. Localizada em Fortaleza, a nova estrutura amplia a distribuição geográfica dos recursos computacionais disponíveis para o Sistema RNP e oferece ambiente especializado para atender às demandas de armazenamento e processamento de dados.
“Destaco a importância desse resultado para as instituições de ensino e pesquisa do Nordeste, que passam a contar com um CND em Fortaleza preparado para contribuir com o desenvolvimento acadêmico e científico da região. Sua localização também é estratégica para a infraestrutura do Sistema RNP. A cidade constitui um dos principais pontos de conexão internacional do país, aproximando nossa infraestrutura das redes acadêmicas e de pesquisa de outras partes do mundo”, disse o diretor de Serviços e Soluções da RNP, Antônio Carlos Fernandes Nunes.
O Chief Revenue Officer (CRO) da Tecto Data Center, Tito Costa, agradeceu à RNP pela parceria. “É um prazer nosso hospedar esse tipo de infraestrutura que busca o desenvolvimento científico e inovação para o nosso país. E estamos abertos a estender essa parceria com a RNP”, afirmou.
Estado e o desenvolvimento de infraestrutura digital, dados, computação e IA
O Fórum RNP apresentou também um painel de reitores e representantes do governo sobre o papel do Estado na infraestrutura digital, dados, computação e IA. Na abertura, o diretor de Relações Institucionais da RNP, Davidson Magalhães, destacou os dados como fator de produção e a importância de manter controle sobre essas informações.

“No cenário atual, marcado pela concentração de plataformas digitais globais, corrida da IA e crescente importância dos dados como ativos econômicos e geopolíticos, a soberania digital não significa isolamento. A questão é participar dessas redes internacionais, preservando a capacidade nacional de decidir sobre o processamento e o compartilhamento dos dados e manter competências instaladas no país”, afirmou.
A mesa reuniu Júlio Xandro Heck, reitor do Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS); Leonardo Alvim Beroldt da Silva, reitor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Sul-Rio-Grandense (IFSUL); Edward Frederico Castro Pessano, reitor da Universidade Federal do Pampa (Unipampa); Caetano Pena, do Centro de Gestão em Estudos Estratégicos do MCTI; e Guilherme de Almeida, do Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI).
Entre os temas discutidos estiveram o desenvolvimento de serviços estratégicos e o fortalecimento do ecossistema nacional de inovação.
Cooperação internacional e soberania digital

Em um mundo cada vez mais interdependente, garantir soberania digital não significa necessariamente se fechar para a cooperação internacional. O debate sobre esse tema reuniu representantes de NRENs de diferentes regiões do mundo: Jie An, da CERNET (China); Lise Fuhr, da GÉANT (Europa); Luis Eliécer Cadenas Marín, da RedCLARA (América Latina e Caribe); e Lisandro Granville, diretor-geral da RNP, que mediou o painel.
“Com a tecnologia, existe uma necessidade de olhar os efeitos de uma regulação. Existe a legislação da IA na Europa que está tentando controlar algumas das consequências da tecnologia. Estamos tentando simplificar esse regulamento em busca de equilíbrio. Ele pode prejudicar a inovação, mas eu não acredito numa sociedade sem regras. Acho que a raça humana precisa pensar em todas as consequências na área digital”, disse Lise Fuhr.
No Fórum RNP também foram apresentados os primeiros passos do Núcleo de Estudos em Soberania Digital, ligado ao Observatório de Tecnologias Digitais. O painel reuniu Luca Belli, professor e diretor do Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV; Hamilton José Mendes da Silva, diretor do Departamento de Ciência, Tecnologia e Inovação Digital do MCTI; Caroline Nascimento Pereira, assessora técnica e líder de projetos em tecnologias digitais do CGEE; e André Rafael Costa e Silva, coordenador de Políticas de Ciência, Tecnologia e Inovação Digital do MCTI. Na discussão, foram abordados o monitoramento de tecnologias emergentes e a produção de dados para políticas públicas.