O Brasil vive um paradoxo que poucos percebem: nunca produzimos tanta tecnologia e, ao mesmo tempo, nunca estivemos tão expostos. Cada Pix que cai, cada sistema de saúde que migra para a nuvem, cada indústria que conecta suas máquinas à internet amplia, na mesma velocidade, a superfície de ataque de infraestruturas críticas do país. Enquanto isso, o exército que deveria defender esse território digital ainda não existe em número suficiente.
Os números são o retrato do desafio. Estimativas do setor apontam um déficit que, no mundo, chega a 4.8 milhões de vagas não preenchidas em cibersegurança — segundo dados da organização ISC2 de 2024. Isso significa que quase 47% da demanda global por profissionais na área não está sendo atendida. E o cenário pede pressa: os incidentes não param de crescer, os golpes online se multiplicam e a inteligência artificial deu aos atacantes uma velocidade que os defensores ainda estão correndo para alcançar. Vulnerabilidades que antes levavam meses para serem exploradas hoje viram ataque em questão de dias.
O problema, porém, não é apenas de quantidade. É de ponte.
A academia forma, mas em um ritmo e em uma direção que nem sempre conversam com o que o mercado precisa. O estudante sai da graduação com a base teórica, mas nem sempre com a experiência prática de um ataque real, de um incidente simulado, de uma decisão de investimento em segurança tomada sob pressão. As empresas, por sua vez, precisam de gente pronta para agir e ainda não encontram em quantidade suficiente. O resultado é um ecossistema inexperiente, onde a demanda por inovação e talentos cresce mais rápido do que a capacidade atual de respondê-la.
Esse é o ponto de partida: um país que digitalizou sua economia em tempo recorde e agora corre para formar seus guardiões.
Fechar essa lacuna não é tarefa de uma instituição isolada. Exige um esforço coordenado de governo, academia, indústria e fomento para transformar conhecimento em gente qualificada e pesquisa em produto. Exige, sobretudo, compromisso.
E foi exatamente isso que o Brasil fez.
A resposta
O cenário que motivou o Hackers do Bem é conhecido: um ecossistema em plena formação, diante de um mercado que deve receber R$ 104,6 bilhões em investimentos em cibersegurança até 2028 — segundo projeção da Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (Brasscom). Menos conhecida é a história da terceira frente do programa — a de pesquisa, desenvolvimento e inovação. É dela que depende o futuro da cibersegurança brasileira, transformando conhecimento em tecnologia própria e reduzindo a dependência de soluções estrangeiras.
É nela que nascem os Grupos de Trabalho (GTs): iniciativas que reúnem pesquisadores de universidades de todo o país para transformar pesquisa acadêmica em soluções aplicadas de cibersegurança, como plataformas de treinamento, laboratórios virtuais, simuladores, ambientes para competições, ferramentas de análise de vulnerabilidades e resposta a incidentes.
O programa soma 12 soluções desenvolvidas por universidades parceiras. Este caso mergulha em 9 — os GTs cujos criadores aceitaram contar, em primeira pessoa, como transformaram pesquisa em produto. Nove vozes, nove instituições, um mesmo ponto de partida: a vontade de fechar a ponte entre o que se ensina e o que o Brasil precisa.
O que essas vozes construíram é o que vem a seguir.
A materialização
Nove laboratórios espalhados pelo país, cada um atacando uma peça diferente do mesmo desafio: como formar, engajar e proteger em uma área que se reinventa todos os dias. As soluções dos Grupos de Trabalho não são projetos isolados, são respostas complementares, que se organizam em quatro eixos: ambientes de prática, gamificação e competição, IA aplicada e decisão e operação.
Ambientes de prática: onde o aprendizado acontece
Toda formação em cibersegurança esbarra na mesma parede: para aprender, é preciso praticar e praticar exige infraestrutura. Dois GTs atacaram essa parede por ângulos diferentes.
O GT-HACKINSDN (UFBA) transformou a infraestrutura da RNP em um laboratório como serviço. Ambientes virtualizados, acessíveis de qualquer dispositivo, com experimentos reprodutíveis. O aluno de qualquer canto do país treina como se estivesse em um data center. Os números contam a adoção: 400 usuários cadastrados e mais de 2.400 laboratórios concluídos.
O GT-ETSC (UFCG) foi na direção oposta e igualmente ousada: em vez de levar o aluno até o laboratório, levou o laboratório até o aluno. Um emulador de treinamento que roda na própria máquina do estudante, sem depender de infraestrutura externa. O impacto aparece em quem passou por ali — cerca de 200 graduandos formados — e se multiplica em uma história que resume o efeito: a Polícia Militar da Paraíba treinou 60 de seus profissionais na ferramenta e, a partir daí, criou sua própria seção de cibersegurança. A experiência foi tão positiva que a Polícia Civil seguiu o exemplo e passou pelo treinamento. Um software de treinamento virou política institucional de segurança pública.
Gamificação e competição: quando aprender vira jogo
Se o desafio da prática é a infraestrutura, o do engajamento é outro: como fazer o estudante voltar, insistir e evoluir? A resposta de três GTs foi transformar o treinamento em jogo e competição.
O GT-CASTLE (UFPR) construiu uma plataforma de ensino gamificado de ataque e defesa que seu coordenador, André Ricardo Gregio, professor e chefe do Departamento de Informática da UFPR, define em uma frase: “é como se fosse o Duolingo da segurança”. A comparação não é casual: a plataforma é customizável, com linguagem própria para criar contêineres de desafios, e já apoia CTFs nacionais.
O GT-EXSS (UFF) escolheu um cenário que todo mundo reconhece: uma loja virtual propositalmente vulnerável. O aluno navega pelo e-commerce, descobre as falhas e aprende a explorá-las em ambiente seguro, guiado por avatar, ganhando medalhas e pontuação. Mais de 100 testadores já passaram pela experiência, e o feedback deles foi incorporado ao produto.
O GT-HIKARI (ITA) elevou a aposta ao nível de competição real: um CTF de resposta a incidentes e caça a ameaças que usa logs reais e muda enquanto se joga. A partida reage às ações dos participantes. A credibilidade veio de quem o adotou: a ferramenta foi usada pela Anatel, no programa “Redes Seguras” de 2025 e 2026, e em competições com as PRODES de Minas Gerais, São Paulo e Distrito Federal.
IA aplicada: quando a tecnologia escala a defesa
Há problemas que o esforço humano sozinho não resolve e a IA entrou em dois GTs para atacar exatamente esses pontos.
O GT-MALWARE DATALAB (Unipampa) enfrentou um gargalo silencioso: treinar detectores de malware exige dados, muitos dados. E gerá-los é lento e caro. O grupo desenvolveu um framework para criar dados sintéticos que aceleram esse treinamento, resultado de uma parceria com a Motorola e a UFAM que produziu o maior dataset do mundo do tipo. O trabalho gerou três dissertações de mestrado e aproximou o grupo do ITA. Nas palavras de seu coordenador, Diego Kreutz, professor de Engenharia de Software na Universidade Federal do Pampa, a urgência é o motor: “na hora que você conclui, já está defasado”, e é exatamente para acompanhar esse ritmo que a síntese de dados existe.
O GT-LFI (UFU) aplicou IA à resposta a incidentes: dados reais anonimizados, classificação com modelos de linguagem e geração automática de playbooks e trilhas gamificadas de treinamento. Cerca de 50 residentes do programa avaliaram a solução e o impacto foi além da usabilidade. O módulo de anonimização, aliás, rendeu artigo e premiações.
Decisão e operação: quando a segurança chega ao mundo real
Por fim, dois GTs levaram a pesquisa para mais perto da operação, um no campo da decisão, outro no campo da defesa em produção.
O GT-IMPACTO (UFRGS) atacou uma lacuna rara: a economia alcançada com o investimento em cibersegurança. Empresas de todos os portes precisam decidir quanto investir em segurança, mas poucas têm ferramentas para embasar essa decisão. O grupo desenvolveu uma ferramenta de análise de investimento, de baixo custo e desenhada para PMEs, única comparável no mercado, já entregue à RNP, acompanhada de minicurso e materiais didáticos.
O GT-SITV, cujo produto final foi batizado de Rede Segura (RNP), é a prova de que a pesquisa pode virar operação: um serviço de validação de vulnerabilidades em produção, com scan em “três cliques”, integrado ao CAIS — área de inteligência em cibersegurança da RNP —, e à Comunidade Acadêmica Federada (CAFe). Em operação desde junho de 2026, atende centenas de organizações pertencentes ao Sistema RNP e já reduziu em cerca de 20% os tickets de incidentes. A meta agora é ambiciosa: cortar pela metade.
A virada
Há um momento, em todo projeto de pesquisa, em que a pergunta deixa de ser “isso funciona?” e passa a ser “quem vai usar?”. É a virada mais difícil — e a que separa uma boa ideia de uma solução que muda o mercado. Os Grupos de Trabalho do Hackers do Bem estão atravessando esse momento agora e o que se vê do outro lado é a formação de um pipeline de produtos de cibersegurança nascidos no Brasil.
Não se trata de um caso isolado. Trata-se de um movimento.
O mecanismo: a capacitação empreendedora
Nada disso aconteceu por acaso. A jornada dos GTs não termina no MVP: durante o desenvolvimento da solução, cada grupo passou por uma capacitação empreendedora — validação de problema, proposta de valor, modelo de negócio, mentorias e preparação para apresentação. Foi essa etapa que ensinou os pesquisadores a olhar para a própria criação com os olhos do mercado: quem vai pagar por isso? Por que esta solução é melhor que a alternativa?
É esse mecanismo que explica o que vem a seguir.
Três caminhos para o mercado
Seis dos nove GTs já estão em movimento e cada um encontrou um caminho próprio.
Três grupos decidiram levar a solução adiante como negócio. Um caso simbólico é o da UFCG: a startup que nasceu do GT-ETSC não foi fundada pelos pesquisadores, mas pelos próprios alunos que se formaram usando a ferramenta. A pesquisa não formou apenas profissionais, formou empreendedores.
O GT-HIKARI, do ITA, fez o caminho inverso e igualmente revelador: primeiro conquistou clientes de peso, depois começou a estruturar a startup. É a lógica que qualquer investidor reconhece: quando instituições de referência usam a sua solução antes de você abrir a empresa, o produto já provou o que tinha de provar. A próxima fronteira é técnica: integrar cenários de table top com apoio de IA.
O GT-HACKINSDN, da UFBA, começou como uma ferramenta para tornar laboratórios de rede acessíveis e foi experimentado pelos próprios professores da instituição, virou um laboratório como serviço e agora caminha para se tornar produto. A pesquisa encontrou o mercado.
Mas nem toda virada precisa se tornar empresa. O GT-SITV fez o caminho diferente: saiu da pesquisa e entrou em operação contínua na RNP como o Rede Segura, protegendo centenas de organizações todos os dias. Para um programa que começou financiando pesquisa, ter um produto em produção é a resposta definitiva à pergunta que todo fomentador faz: o investimento retornou?
Há ainda os que fecharam a validação técnica e buscam o próximo salto. O GT-CASTLE, da UFPR, mira novos mercados — treinamento in company e formação de Red Teams. Já o GT-LFI, da UFU, registrou o software e busca parceiros. Com a tecnologia em mãos, o próximo passo é encontrar investidores.
O que essa virada significa
Somados, os seis GTs em movimento formam algo maior que a soma das partes: um pipeline de inovação em cibersegurança no Brasil. Pesquisa aplicada, validada com usuários reais, capacitada para o empreendedorismo e agora em busca de mercado.
É exatamente isso que separa um programa de formação de um programa de indústria. Não basta formar quem defende, é preciso construir as ferramentas que eles vão usar e as empresas que vão sustentá-las.
A cibersegurança brasileira está deixando de ser só consumidora de tecnologia estrangeira. Está começando a produzir a própria.
O legado
Todo programa deixa duas heranças: os resultados que se medem e a estrutura que permanece. O Hackers do Bem entregou as duas. As soluções dos GTs são a prova do que a pesquisa brasileira é capaz de construir e o Hub Nacional de Cibersegurança é o lugar onde essa capacidade encontra continuidade — e o talento encontra o seu espaço.
O ponto de encontro do ecossistema
O Hub é o compromisso do programa com a permanência. De nada adianta formar talentos e financiar projetos se não existe um espaço onde instituições, governo, reguladores, fomento, empresas, startups, alunos e associações se encontram. É desse encontro que nasce o ecossistema e é do ecossistema que nasce indústria.
O Hub não é promessa: é movimento. Webinars, fóruns de discussões de notícias, competições e atividades gamificadas aproximam estudantes da cibersegurança e conectam quem produz conhecimento a quem precisa dele.
Talento que fica
Formar profissionais é metade do caminho, a outra metade é dar a eles razões para permanecer. O Hub responde a esse desafio: o estudante que entrou pelo Nivelamento, avançou pela trilha e talvez testou uma solução de GT encontra no ecossistema um caminho para continuar como profissional, como empreendedor, como pesquisador.
Cada startup nascida de um GT é um talento que ficou no país. Cada solução adotada por uma instituição é um ciclo que se fecha dentro do Brasil.
Não se trata apenas de substituir importações. Trata-se de construir capacidade própria de pesquisa, desenvolvimento e inovação em um setor que é, ao mesmo tempo, econômico e estratégico. O país que domina essa indústria protege sua economia, suas instituições e sua soberania digital.
Para as empresas, o convite é adotar. Para as startups, é se conectar. Para a academia, é colaborar. Para o talento, é entrar. O ecossistema de cibersegurança brasileiro deixou de ser um projeto para se tornar um movimento e o próximo capítulo se escreve com quem aceitar o chamado.