Em 19 de outubro, celebra-se o Dia Nacional da Inovação, instituído pela Lei nº 12.193/2010. A data não foi escolhida ao acaso: é uma homenagem a Santos Dumont, que, no mesmo dia de 1901, venceu o Prêmio Deutsch ao completar, a bordo do dirigível nº 6, o trajeto entre o Parc de Saint-Cloud e a Torre Eiffel, em Paris, dentro do tempo estipulado. O feito consagrou um brasileiro como um dos grandes símbolos mundiais da capacidade de transformar conhecimento técnico em solução prática, exatamente o tipo de trajetória que a data busca celebrar todos os anos.
Mas o que se entende, afinal, por inovação? O Manual de Oslo, referência internacional da OCDE sobre o tema, define inovação como um produto ou processo novo ou aprimorado (ou uma combinação deles) que difere significativamente dos produtos ou processos anteriores da unidade e que foi disponibilizado a potenciais usuários (no caso de produto) ou colocado em uso pela unidade (no caso de processo). É uma definição útil porque desloca o conceito do senso comum (associado apenas à ideia de invenção ou novidade tecnológica) para um entendimento mais preciso: inovar é gerar mudança efetiva, testável e aplicável, capaz de criar valor real para quem a utiliza.
Essa é a chave de leitura mais adequada para tratar o tema: menos como palavra de efeito, mais como prática institucional sustentada por pesquisa aplicada, infraestrutura, experimentação e colaboração em rede.
Inovação como processo, não como discurso
Em ambientes intensivos em conhecimento, inovação raramente nasce pronta. Ela costuma começar com um problema concreto, passa por investigação, desenvolvimento, testes e ajustes, e só então alcança maturidade suficiente para sustentar uma aplicação mais ampla, assim como Santos Dumont precisou de tentativas anteriores malsucedidas antes de completar o percurso que lhe garantiu o Prêmio Deutsch.
Esse percurso importa porque evita uma leitura simplificada do tema: inovar não é lançar algo novo, é construir (com método) as condições para que uma proposta responda de forma qualificada a uma necessidade real. Isso demanda tempo, capacidade técnica, articulação entre diferentes atores e, sobretudo, disposição para experimentar e aprender ao longo do caminho.
Na RNP, essa compreensão orienta a atuação institucional, dentro e fora dos muros institucionais. A inovação aparece não apenas no resultado, mas na forma como projetos, programas, ambientes de experimentação e parcerias são estruturados para aproximar pesquisa aplicada e desenvolvimento tecnológico das demandas concretas da comunidade. A organização ainda estimula a inovação internamente, com os colaboradores atuando como protagonistas na busca de soluções para desafios reais internamente.
Uma inovação que se constrói em rede
A própria natureza da RNP explica esse modelo. Como organização voltada à conectividade, aos serviços avançados e ao apoio a instituições de ensino e pesquisa, a organização também inova em rede: a produção de soluções não depende de um esforço isolado, mas da convergência entre equipes técnicas, pesquisadores, especialistas, instituições parceiras e ambientes capazes de apoiar desenvolvimento e validação.
Essa lógica colaborativa é essencial porque os desafios enfrentados hoje pelas instituições raramente admitem respostas lineares. Temas como transformação digital, interoperabilidade, acessibilidade, inteligência artificial, gestão de identidade, ciência aberta ou automação de processos exigem múltiplos saberes, diferentes pontos de vista e capacidade real de experimentação.
Inovar em rede significa reconhecer que o conhecimento mais útil nem sempre está concentrado em um único lugar: ele se distribui entre pessoas, instituições, experiências e contextos. Cabe à RNP criar conexões, organizar capacidades e oferecer meios para que essa inteligência coletiva se converta em desenvolvimento concreto.
Essa lógica se estende à inovação coorporativa com foco em intraempreendedorismo: a colaboração entre áreas e a formação de equipes multidisciplinares são formas de aproveitar a inteligência coletiva que já existe dentro da organização.
Pesquisa aplicada como base da transformação
Uma das formas mais consistentes de compreender a inovação na RNP é observá-la a partir da pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I). A pesquisa aplicada desloca o debate da formulação abstrata para a resolução de problemas específicos, com foco em uso, teste, validação e aprendizado.
Ao contrário de uma leitura que opõe pesquisa e aplicação, o que se observa é uma relação de continuidade: investigar, desenvolver, experimentar e validar são etapas de um mesmo processo. Em vez de reduzir a inovação a um produto acabado, essa abordagem valoriza o percurso técnico e metodológico necessário para que uma ideia se torne viável, relevante e aderente a contextos reais.
Esse raciocínio é especialmente relevante para o ecossistema de ensino e pesquisa. Agendas como permanência estudantil, qualificação de ambientes digitais, ampliação de acessibilidade, fortalecimento da colaboração científica e desenvolvimento de novas infraestruturas tecnológicas pedem exatamente esse tipo de esforço: transformar conhecimento especializado em resposta concreta.
O papel dos programas e ambientes de experimentação
Para que esse movimento aconteça de forma estruturada, a inovação precisa de mecanismos institucionais. A RNP também mantém programas de intraempreendedorismo, nos quais colaboradores de diferentes áreas propõem e testam soluções para desafios reais da organização, com apoio metodológico e foco em evidências que permitem testar hipóteses, validar abordagens e amadurecer propostas, o que inclui a infraestrutura de rede e computacional que sustenta boa parte dessa experimentação.
É nesse ponto que as iniciativas de PD&I ganham relevância estratégica: organizam a relação entre problema, conhecimento, desenvolvimento técnico e possibilidade de aplicação. Mais do que estimular ideias, criam condições para que elas sejam avaliadas, refinadas e confrontadas com necessidades reais.
Os ambientes de experimentação cumprem papel semelhante. Laboratórios, testbeds e outras infraestruturas de apoio permitem que propostas sejam desenvolvidas em contexto controlado, com suporte técnico e espaço para iteração, reduzindo a distância entre concepção e validação e qualificando o amadurecimento das soluções.
Vale destacar que parte importante da inovação acontece nos bastidores: espaços para experimentar, aprender com o erro e dar visibilidade às iniciativas dos colaboradores, como a Semana da Inovação e o reconhecimento de iniciativas internas; na definição do problema, na escolha da abordagem, no teste de alternativas; na avaliação de resultados, no ajuste contínuo da proposta. Dar visibilidade a esse processo também qualifica o entendimento público sobre o tema.
Inovação aberta e desenvolvimento colaborativo de soluções
Outro ponto central é que a inovação se inscreve em uma lógica de colaboração ampliada. Isso significa reconhecer o valor da inovação aberta como forma de aproximar competências, experiências e perspectivas diversas em torno de desafios compartilhados, envolvendo não só equipes internas, mas também instituições parceiras, comunidade acadêmica e, em muitos casos, o setor produtivo.
Na prática, esse modelo favorece soluções com maior aderência às necessidades da comunidade, justamente porque amplia a escuta, a diversidade de contribuições e as possibilidades de desenvolvimento. Em vez de restringir a inovação a um ambiente fechado, essa perspectiva aposta em conexões que tornam o processo mais rico e mais responsivo.
Essa dimensão é particularmente relevante para a atuação da RNP junto ao sistema de ensino e pesquisa: o desenvolvimento de soluções em rede reflete a própria natureza dos desafios desse ecossistema. Desafios que pedem cooperação, experimentação e capacidade de adaptação. Muitos serviços que hoje ofertados pela organização, como a CAFe, Diploma Digital, ConferênciaWeb e V4H surgiram desta forma.
Divulgação científica também faz parte desse processo
Se a inovação depende de pesquisa aplicada, ambientes de experimentação e desenvolvimento colaborativo, ela também depende de comunicação qualificada – não apenas para dar visibilidade a resultados, mas para explicar processos, traduzir conceitos e tornar compreensível a relação entre conhecimento técnico e impacto institucional ou social.
É aqui que a divulgação científica se torna especialmente relevante. Em vez de reduzir temas complexos a fórmulas simplificadas, ela ajuda a tornar inteligível o caminho que vai da investigação ao uso, do teste ao aprendizado, da solução ao contexto em que ela se aplica.
Para a RNP, isso significa comunicar inovação com precisão, evidência e clareza: mostrar não apenas o que está sendo desenvolvido, mas porque isso importa, que problema busca enfrentar, em que estágio se encontra e que aprendizado já foi produzido ao longo do percurso. Assim, a comunicação ajuda a construir uma percepção pública mais madura da inovação, como prática institucional sustentada por método, colaboração e responsabilidade.
Uma agenda com base concreta
O Dia Nacional da Inovação, portanto, não deve ser visto apenas como uma data comemorativa. Mais de um século depois do voo de Santos Dumont em torno da Torre Eiffel, a data segue servindo como lembrete de que toda inovação relevante nasce da combinação entre visão, método e capacidade de execução.
Inovar é criar condições para que pesquisa aplicada, infraestrutura, inteligência coletiva e capacidade de experimentação se convertam em soluções, aprendizados e novas possibilidades para a comunidade de ensino e pesquisa. É um trabalho que exige visão de futuro, mas também base concreta: pessoas, processos, ambientes, parcerias, critérios e compromisso com problemas reais.
Porque, no fim, inovar não é apenas imaginar o novo. É construir, com método e colaboração, os caminhos que tornam esse novo possível.
Capa: Imagem gerada por IA