Keynote do Fórum RNP 2026, Martha Gabriel defende que país aproveite recursos estratégicos para conquistar relevância e autonomia na era da IA
Em meio à disputa entre os Estados Unidos (EUA) e a China pela liderança mundial em inteligência artificial (IA), o Brasil não precisa necessariamente entrar em uma corrida para criar o modelo mais poderoso. O caminho pode ser o de transformar recursos estratégicos que o país já possui, como oferta de energia e minerais essenciais para a infraestrutura de IA, em capacidade tecnológica, aplicações de alto valor e propriedade intelectual. Essa é a visão que a futurista e especialista em IA Martha Gabriel apresentará durante sua participação no Fórum RNP 2026.
O avanço da IA, porém, já ultrapassa a dimensão tecnológica e econômica. Modelos cada vez mais sofisticados têm passado influenciar áreas como segurança, pesquisa científica e desenvolvimento industrial, por isso o domínio da IA também ganha peso nas relações de poder entre os países. Para o Brasil, vai além da sua capacidade de desenvolver essa tecnologia, mas também em sua autonomia para decidir como e onde será usada.
“A IA de fronteira passa a ser considerada um ativo estratégico para os países, assim como foi o petróleo e a tecnologia nuclear no século passado. Modelos muito avançados podem ajudar na descoberta de vulnerabilidades cibernéticas, pesquisa militar, inteligência e desenvolvimento tecnológico. Por isso, o mapa geopolítico no planeta está se redesenhando em função dos avanços da IA e sua infraestrutura. O Brasil ocupa uma posição paradoxal, pois não é uma potência de IA, mas possui vários dos ativos que serão necessários para sustentar as potências de IA”, explica a especialista em inteligência artificial.
Martha Gabriel será a keynote speaker do primeiro dia do Fórum RNP 2026, que será aberto ao público nesta terça-feira (25), em Brasília. Com o tema “Soberania Digital – Dados, IA e Pessoas”, o evento reúne especialistas em debates sobre os desafios e oportunidades trazidos pela transformação digital para o país. Em sua apresentação, a futurista deve ampliar essa discussão para uma questão cada vez mais relevante: até onde devemos delegar às máquinas decisões que afetam a sociedade e a própria vida das pessoas?
“A história nos ensina que nem tudo que pode ser automatizado ou delegado deve ser, porque nem sempre o principal valor envolvido é a eficiência. Existem diversas dimensões que devem ser avaliadas. O benefício do uso da tecnologia é o primeiro fator a ser considerado, mas também devem ser avaliados o custo do erro, a reversibilidade, a autonomia, a incerteza, o impacto humano e social e a dependência. Quanto maior for o custo do erro, a irreversibilidade, a incerteza ou o impacto humano, maior se torna a necessidade de envolvimento ou supervisão humana”, afirma.
À medida que a IA assume tarefas que antes exigiam raciocínio humano, o desafio passa a ser menos a execução e mais a capacidade de avaliar resultados, fazer escolhas e definir caminhos. Para Martha, é nesse contexto que o pensamento crítico ganha ainda mais importância.
“A IA pode produzir um volume extraordinário de conteúdos e insights em muito pouco tempo, e isso requer capacidade humana para discernir o que deve ser usado, conectado, ampliado,
descartado, corrigido. Além disso, o discernimento passa a ser essencial para decidir quando usar, ou não, a IA. Por isso, costumo dizer que o pensamento crítico é a habilidade zero, fundamental, na era da IA”, ressalta Martha Gabriel.
A reflexão também se estende à própria ideia de soberania digital. Para Martha, preservar a autonomia diante da tecnologia é um desafio que ultrapassa governos e empresas e chega às pessoas.
“Soberania digital não é apenas sobre soberania do Estado sobre a tecnologia, mas é também preservar a soberania das pessoas diante da tecnologia”, aponta.